Da Revista La
Fraternidad, Buenos Aires – Argentina, maio de 1949.
Nos campos da
filosofia universal apareceu, aproximadamente há duas décadas, a inconfundível
figura de Pietro Ubaldi, que provocou verdadeira revolução na teoria do
conhecimento. Segundo o parecer de eminentes críticos, entretanto, esse
pensador não pode ser comparado ao homem que filosofa, atendo-se unicamente às
essências racionais das coisas. Mais do que filósofo, Ubaldi é um profeta
que revela o conhecimento, e não um forjador de conceitos e dilemas metafísicos.
Nisto consiste a original característica que tanto o distingue dos pensadores
contemporâneos, que muito poucas vezes se arriscaram ao que poderíamos chamar Filosofia
da Revelação. A obra filosófica sempre foi considerada puro fruto da
inteligência racional ou do esforço pensante. E, se alguma vez aparecesse um
pensador que pudesse refletir formas de conhecimento que ultrapassassem os
métodos comuns, imediatamente o colocavam no campo da iluminação mística. Deste
modo, a filosofia da revelação era quase sempre excluída dos quadros clássicos
da metafísica, porque se julgava que a obra filosófica pertencia apenas ao
mundo do racional, que era considerado a única fonte de saber humano.
Entretanto, como uma faísca de fogo, Ubaldi incide nas formas conceptuais,
transfigura a natureza em puro espírito e se lança a um trabalho que reúne num
só feixe os instrumentos do conhecimento, até ao ponto de unificar
definitivamente as duas gnoseologias fundamentais da humanidade: a ciência e a
religião. Seu trabalho profético, entrosado com os planos divinos da
história, torna-se uma prolongação do Logos, ou Verbo Encarnado,
reafirmando dessa forma, com heroica habilidade, o mesmo trabalho de São Tomás
de Aquino, que, da mesma forma que ele, reconciliou para todos os tempos a fé
com a razão.
Mas a originalidade
de Ubaldi consiste no fato de que ele “possui outro mundo sobre seus ombros”,
do qual está totalmente consciente. Sabe que sua natureza metafísica não opera
com elementos racionais apenas, mas que há, em sua criação filosófica, uma poderosa
intervenção do espírito, que faz sua pena dizer verdades não comuns para a
inteligência racional do homem.
Creio firmemente
que Ubaldi representa em nosso século uma ressurreição dos antigos profetas de
Israel, que
tiveram a missão de preparar o terreno para a chegada do Cristo encarnado. O
filósofo de Gúbio executa, em nosso tempo, trabalho similar: prepara as
inteligências para a recepção do Cristo invisível, que há de reunir em um só
rebanho e um só pastor a humanidade da Terra, já que o fim dos tempos, isto é,
o fim da história, se aproxima apocalipticamente.
Em nosso tempo,
Ubaldi representa uma demonstração real da unidade que deverá existir entre a
religião e a ciência e, ao mesmo tempo, uma antecipação dos novos caminhos que
serão seguidos pelo espiritualismo moderno. Em sua correspondência, manifesta-me
sempre que seu espiritualismo é cristão e que toda a sua produção filosófica
desemboca na sabedoria cristã. Com efeito, Ubaldi não lega apenas um saber
filosófico às gerações atuais; ele entrega ao espírito contemporâneo uma
sabedoria, isto é, a sabedoria da revelação. Por isso Ubaldi “não é
só um fato ou processo científico, mas um verdadeiro ato místico e religioso”,
fundamentado nas eternas realidades do espírito.
Buenos Aires, maio
de 1949.
(a.) Humberto
Mariotti”
CONHEÇA A VIDA E A OBRA DE PIETRO UBALDI
