Artigo de Pietro Ubaldi: “TRITTICO”
Março-abril 1928
TRÍTICO
Vapores estranhos se acumulam sobre a terra, levemente salientes, como uma maré. A lua branca brilha sobre eles, criando fantasmas.
Do alto de Assis, na
noite, eu observo.
Observo com os olhos
estranhos do subconsciente.
Observo as estrelas
vivas, lá em cima, e seu puro tremor me causa tanta nostalgia.
Olho para a terra
adormecida, lá embaixo; ela também parece pura na noite tardia.
Está toda envolta em
véus diáfanos e parece que repousa, inocente como no alvorecer da vida.
Parece que ainda
espera ser criada; parece que, na maré crescente de vapores estranhos, as
formas dos seres ainda dormem e tudo se
recolhe, quase tremendo, num silêncio sagrado, para venerar o grande mistério
da vida nascitura.
Longe, na névoa
incerta, os contornos das coisas se perdem e ondulam, como formas que
lentamente emergem do nada.
Parece que vagueia no
ar uma vontade ainda indecisa de existir e, na incerteza do ser ou não ser,
parece que as coisas tentam encontrar sua forma.
À luz suave da lua,
estranhos fantasmas erguem a cabeça das névoas, depois se dissolvem,
desmoronando.
Formas que se
vão.
Formas que se vão em
longa fila, tentando a vida. Elas
nasceram e a evolução, imediatamente, colocou o dilema do ser ou não ser:
avançar ou acabar; e, entre a vida e a morte, a evolução pressiona, sem trégua,
cada vez mais para cima.
Em paz, as estrelas
contemplam do céu o grande apocalipse e sorriem tranquilas, sem se
maravilharem. Antigo é o espetáculo para
elas, tantas vezes visto e vivido.
A eternidade não se
perturba mais.
O AMANHECER.
Luzes tenras tremulam
a leste; no horizonte oposto, a lua desce lentamente, vencida pelo dia que
cresce. Puríssimas, as estrelas ainda
contemplam do alto e têm a cor do céu.
Das trevas emergem as cores, como, outrora, o arco-íris se tingiu ao
amanhecer da luz. A vida desperta lá
embaixo pela vasta planície; uma imensa ternura toma conta de mim pelo homem e
pelas suas dores.
Eu emergi de uma noite
sem dormir e o amanhecer me encontra ainda com os olhos abertos, empenhado em
perseguir a ideia.
A meditação profunda
não tem tempo e é viva como uma paixão.
Oh! As vigílias
insones do pensamento! Felizes vós, almas rudes e mudas, imunes ao encanto
venenoso da terra e do céu; felizes vós que podeis viver sem saber e sem
perguntar.
O mistério me
pressiona, não me dá trégua.
O que é, no infinito,
este meu espírito sem paz? Para onde me empurra o turbilhão dos séculos? Para
onde me leva, para onde nos leva a todos, esta vontade de viver que nunca se
sacia?
Nas noites sem dormir
eu vi; mas a esfinge desvendada estrangula lentamente quem ousa olhar-lhe nos
olhos e me tirará a vida. Desgastei o
corpo, mas morrerei contente, pois conquistei uma vida mais vasta.
As grandes forças
biológicas que, em milhões de anos, moldaram a forma da vida material, por que
deveriam estar adormecidas?
Não. A evolução sempre impele a partir de baixo e
sempre pressiona em direção a formas mais elevadas, sem fim; nem pode parar e
agora continua em um nível mais alto, o nível humano da psique.
Também em mim a
evolução colocou o dilema do ser ou não ser; avançar ou terminar. Compreendi-o; e o misterioso turbilhão dos
séculos começou a ferver dentro do meu espírito.
Subia, como uma maré,
o passado que vivi, as lutas e as provações superadas me impulsionavam;
finalmente eu havia mudado e estava maduro para a grande revolução.
Tudo isso vi em uma
luz crepuscular interior, irradiando da minha alma.
O tempo, infinito,
havia marcado o ritmo da minha transformação fenomenal.
Vi a minha eternidade:
um amadurecimento lento culminando em um estrondo, como o relâmpago no caminho
de Damasco.
Eu havia chegado. Assim, atravessei o limiar e vivi uma nova
forma de vida.
O Universo tremeu
dentro de mim. No entanto, as coisas
seguiam iguais e tranquilas, sem se perturbar.
Quando a evolução criou a primeira asa ou trouxe o primeiro olho à luz,
a eternidade não se perturbou. Grandes
milagres de forma natural a vida opera sem admiração, com a paz eterna de quem
sabe e, sem pressa, chega.
O DIA.
O que é aquilo lá ao
longe que emerge da névoa matinal, estranho monumento erguido em direção ao
céu?
Ruínas da antiga Tebas
ou, ao longo do vale do Ganges, muralhas de castelos indianos ou, na planície
do Sena, a glória de Paris?
Não! É a bela cúpula
de Vignola, que brilha ao sol.
Gostaria que também a
ideia que a criou respondesse ao sol.
São Francisco, tua bela figura está tão distante, e já não te
compreendemos.
Homem, levanta-te e
vive; segue os passos dos grandes na grande via da libertação; levanta-te e
constrói a ti mesmo, molda em ti o super-homem.
Vi teu futuro reino
nas vigílias sem sono, miragem bela como uma visão. Por que não o conheces?
Por que demoras tanto
no caminho do teu progresso? Tu, que entre tantos seres, venceste na Terra a
grande corrida da evolução e agora, tendo chegado ao ápice da vida animal,
dominas o planeta, por que demoras tanto para seguir em frente?
A evolução biológica
está concluída. A evolução espiritual te espera. Supera o animal de que ainda
és feito; torna-te grande na alma.
Observa quanto caminho
a natureza percorreu para produzir em ti sua obra-prima. Parece que ela tentou todas as formas para
encontrar uma única mais sublime: o homem.
Que esforço nas tentativas, que imenso trabalho de formas abandonadas
para deixar sobreviver apenas uma para o futuro: o homem! Observe, nas espécies
vegetais e animais, as marcas, que ficaram a meio caminho, dessa vontade
insaciável de te criar. Elas se curvam
diante de ti, senhor, e parecem se apoiar para te sustentar no alto. Por que demoras ainda em superar a vida?
Não sentes ferver na
alma a história dos séculos vividos, não sentes subir a maré das lutas e
provações superadas, não sentes, das sepulturas, a voz dos mártires e dos
grandes que te chama para uma espiritualidade mais elevada?
Homem! Também a ti a
evolução colocou diante do dilema do ser ou não ser; avançar ou acabar. Não sabes que não é lícito parar? Se a
própria natureza do universo é o movimento e o progresso, será que tu, pequeno
homem, querias mesmo parar a grande corrente?
Acima da tua vontade
pairam as grandes leis e paira a dor, a sanção delas.
Que novo cataclismo
esperas, que novo sofrimento que te obrigue a agir, até que sintas o estrondo
do raio no caminho de Damasco e tu, forçado, atravesses o limiar do reino do
super-homem?
Oh! Minha sede de
evoluir vertiginosamente, a ânsia de construir minha alma, a luta para vencer e
superar a fase da paixão e descansar depois na do livre conhecimento, tu não a
sentes!
Não. Tu não queres o
conhecimento. Tu amas viver como um bruto, amas a terra e te bastam, para agir,
as tuas paixões. Te deixas levar pelo
instinto, sem te importares com isso, nem anseias por compreender o que fazes.
Falaram, dando-se as
mãos, a revelação divina e a ciência humana, e estão de acordo para os ouvidos
bons; os mártires de todas as religiões deram o exemplo, para os ouvidos mais
duros.
O homem ainda não
compreende.
Pobre homem! A dor
falará.
Último recurso de leis
justas e boas para induzir um cego ao caminho fatal de seu bem e de seu
progresso, a dor sacudirá a inércia.
Pobre homem! Olho para
ti com desânimo e me deixo cair, cansado.
Minha cabeça bate contra uma imensa muralha de tantas e tantas mentes
iguais, inertes, felizes por viverem sua vida miserável. Estou sozinho e exausto. Tu não me ouves.
FINAL.
O amanhecer se
transformou em dia.
Lá embaixo, fumegante,
jaz a planície, adormecida sob o amanhecer.
Do lento vaguear das
névoas, parece que se desperta o rodopiar do tempo.
Feliz é a manhã,
alegre e cheia de juventude; no ar leve e sereno vibra a promessa da vida.
Mas se desvanece com o
dia a pureza das horas matinais,
e as estrelas já não olham para baixo
sorrindo tranquilas,
e enquanto morre o último clarão do
amanhecer,
dentro de mim, como um eco, repete-se:
Ser ou não ser; evoluir ou acabar.
E vejo na dor o
caminho da evolução. Somente na dor, livremente amada, vejo o caminho do ser, a
única força que torna a alma grande.
E no intenso desejo de
avançar sem descanso, uma grande sede me toma de querer sofrer.
Chamo a dor com os
braços estendidos e o eco me repete ainda: “Ou sofrer ou morrer”.
UBALDI PIETRO.
* Tradução: Bibiana
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