domingo, 5 de abril de 2026

ULTRA – RIVISTA DI STUDI E DI RICERCHE SPIRITUALI - 1928 - (TRADUÇÃO*)

Artigo de Pietro Ubaldi: “TRITTICO”

                                                    Março-abril 1928

 

TRÍTICO

 A NOITE.

Vapores estranhos se acumulam sobre a terra, levemente salientes, como uma maré. A lua branca brilha sobre eles, criando fantasmas.

Do alto de Assis, na noite, eu observo. 

Observo com os olhos estranhos do subconsciente. 

Observo as estrelas vivas, lá em cima, e seu puro tremor me causa tanta nostalgia. 

Olho para a terra adormecida, lá embaixo; ela também parece pura na noite tardia.

Está toda envolta em véus diáfanos e parece que repousa, inocente como no alvorecer da vida. 

Parece que ainda espera ser criada; parece que, na maré crescente de vapores estranhos, as formas dos seres ainda dormem  e tudo se recolhe, quase tremendo, num silêncio sagrado, para venerar o grande mistério da vida nascitura. 

Longe, na névoa incerta, os contornos das coisas se perdem e ondulam, como formas que lentamente emergem do nada. 

Parece que vagueia no ar uma vontade ainda indecisa de existir e, na incerteza do ser ou não ser, parece que as coisas tentam encontrar sua forma.

À luz suave da lua, estranhos fantasmas erguem a cabeça das névoas, depois se dissolvem, desmoronando.

Formas que se vão. 

Formas que se vão em longa fila, tentando a vida.  Elas nasceram e a evolução, imediatamente, colocou o dilema do ser ou não ser: avançar ou acabar; e, entre a vida e a morte, a evolução pressiona, sem trégua, cada vez mais para cima. 

Em paz, as estrelas contemplam do céu o grande apocalipse e sorriem tranquilas, sem se maravilharem.  Antigo é o espetáculo para elas, tantas vezes visto e vivido. 

A eternidade não se perturba mais. 

 

O AMANHECER.

 O amanhecer se aproxima.

Luzes tenras tremulam a leste; no horizonte oposto, a lua desce lentamente, vencida pelo dia que cresce.  Puríssimas, as estrelas ainda contemplam do alto e têm a cor do céu.  Das trevas emergem as cores, como, outrora, o arco-íris se tingiu ao amanhecer da luz.  A vida desperta lá embaixo pela vasta planície; uma imensa ternura toma conta de mim pelo homem e pelas suas dores.

Eu emergi de uma noite sem dormir e o amanhecer me encontra ainda com os olhos abertos, empenhado em perseguir a ideia.

A meditação profunda não tem tempo e é viva como uma paixão. 

Oh! As vigílias insones do pensamento! Felizes vós, almas rudes e mudas, imunes ao encanto venenoso da terra e do céu; felizes vós que podeis viver sem saber e sem perguntar.

O mistério me pressiona, não me dá trégua. 

O que é, no infinito, este meu espírito sem paz? Para onde me empurra o turbilhão dos séculos? Para onde me leva, para onde nos leva a todos, esta vontade de viver que nunca se sacia?

Nas noites sem dormir eu vi; mas a esfinge desvendada estrangula lentamente quem ousa olhar-lhe nos olhos e me tirará a vida.  Desgastei o corpo, mas morrerei contente, pois conquistei uma vida mais vasta.

As grandes forças biológicas que, em milhões de anos, moldaram a forma da vida material, por que deveriam estar adormecidas?

Não.  A evolução sempre impele a partir de baixo e sempre pressiona em direção a formas mais elevadas, sem fim; nem pode parar e agora continua em um nível mais alto, o nível humano da psique. 

Também em mim a evolução colocou o dilema do ser ou não ser; avançar ou terminar.  Compreendi-o; e o misterioso turbilhão dos séculos começou a ferver dentro do meu espírito.

Subia, como uma maré, o passado que vivi, as lutas e as provações superadas me impulsionavam; finalmente eu havia mudado e estava maduro para a grande revolução.

Tudo isso vi em uma luz crepuscular interior, irradiando da minha alma. 

O tempo, infinito, havia marcado o ritmo da minha transformação fenomenal.

Vi a minha eternidade: um amadurecimento lento culminando em um estrondo, como o relâmpago no caminho de Damasco.

Eu havia chegado.  Assim, atravessei o limiar e vivi uma nova forma de vida.

O Universo tremeu dentro de mim.  No entanto, as coisas seguiam iguais e tranquilas, sem se perturbar.  Quando a evolução criou a primeira asa ou trouxe o primeiro olho à luz, a eternidade não se perturbou.  Grandes milagres de forma natural a vida opera sem admiração, com a paz eterna de quem sabe e, sem pressa, chega.

 

O DIA.

O que é aquilo lá ao longe que emerge da névoa matinal, estranho monumento erguido em direção ao céu?

Ruínas da antiga Tebas ou, ao longo do vale do Ganges, muralhas de castelos indianos ou, na planície do Sena, a glória de Paris?

Não! É a bela cúpula de Vignola, que brilha ao sol.

Gostaria que também a ideia que a criou respondesse ao sol.  São Francisco, tua bela figura está tão distante, e já não te compreendemos.

Homem, levanta-te e vive; segue os passos dos grandes na grande via da libertação; levanta-te e constrói a ti mesmo, molda em ti o super-homem.

Vi teu futuro reino nas vigílias sem sono, miragem bela como uma visão.  Por que não o conheces?

Por que demoras tanto no caminho do teu progresso? Tu, que entre tantos seres, venceste na Terra a grande corrida da evolução e agora, tendo chegado ao ápice da vida animal, dominas o planeta, por que demoras tanto para seguir em frente?

A evolução biológica está concluída. A evolução espiritual te espera. Supera o animal de que ainda és feito; torna-te grande na alma.

Observa quanto caminho a natureza percorreu para produzir em ti sua obra-prima.  Parece que ela tentou todas as formas para encontrar uma única mais sublime: o homem.  Que esforço nas tentativas, que imenso trabalho de formas abandonadas para deixar sobreviver apenas uma para o futuro: o homem! Observe, nas espécies vegetais e animais, as marcas, que ficaram a meio caminho, dessa vontade insaciável de te criar.  Elas se curvam diante de ti, senhor, e parecem se apoiar para te sustentar no alto.  Por que demoras ainda em superar a vida?

Não sentes ferver na alma a história dos séculos vividos, não sentes subir a maré das lutas e provações superadas, não sentes, das sepulturas, a voz dos mártires e dos grandes que te chama para uma espiritualidade mais elevada?

 

Homem! Também a ti a evolução colocou diante do dilema do ser ou não ser; avançar ou acabar.  Não sabes que não é lícito parar? Se a própria natureza do universo é o movimento e o progresso, será que tu, pequeno homem, querias mesmo parar a grande corrente?

Acima da tua vontade pairam as grandes leis e paira a dor, a sanção delas.

Que novo cataclismo esperas, que novo sofrimento que te obrigue a agir, até que sintas o estrondo do raio no caminho de Damasco e tu, forçado, atravesses o limiar do reino do super-homem?

Oh! Minha sede de evoluir vertiginosamente, a ânsia de construir minha alma, a luta para vencer e superar a fase da paixão e descansar depois na do livre conhecimento, tu não a sentes!

Não. Tu não queres o conhecimento. Tu amas viver como um bruto, amas a terra e te bastam, para agir, as tuas paixões.  Te deixas levar pelo instinto, sem te importares com isso, nem anseias por compreender o que fazes.

Falaram, dando-se as mãos, a revelação divina e a ciência humana, e estão de acordo para os ouvidos bons; os mártires de todas as religiões deram o exemplo, para os ouvidos mais duros.

O homem ainda não compreende.

Pobre homem! A dor falará.

Último recurso de leis justas e boas para induzir um cego ao caminho fatal de seu bem e de seu progresso, a dor sacudirá a inércia.

Pobre homem! Olho para ti com desânimo e me deixo cair, cansado.  Minha cabeça bate contra uma imensa muralha de tantas e tantas mentes iguais, inertes, felizes por viverem sua vida miserável.  Estou sozinho e exausto.  Tu não me ouves.

 

FINAL.

O amanhecer se transformou em dia. 

Lá embaixo, fumegante, jaz a planície, adormecida sob o amanhecer.

Do lento vaguear das névoas, parece que se desperta o rodopiar do tempo.

Feliz é a manhã, alegre e cheia de juventude; no ar leve e sereno vibra a promessa da vida.

Mas se desvanece com o dia a pureza das horas matinais,

    e as estrelas já não olham para baixo sorrindo tranquilas,

    e enquanto morre o último clarão do amanhecer,

dentro de mim, como um eco, repete-se:

Ser ou não ser; evoluir ou acabar.

E vejo na dor o caminho da evolução. Somente na dor, livremente amada, vejo o caminho do ser, a única força que torna a alma grande.

E no intenso desejo de avançar sem descanso, uma grande sede me toma de querer sofrer.

Chamo a dor com os braços estendidos e o eco me repete ainda: “Ou sofrer ou morrer”.

 

                                                                                                                                    UBALDI PIETRO.

* Tradução: Bibiana

Conheça a vida e a obra de Pietro Ubaldi

sábado, 4 de abril de 2026

OS IDEAIS FRANCISCANOS DIANTE DA PSICOLOGIA MODERNA

 



"A dor, força providencial, impõe a todos um mínimo obrigatório de aperfeiçoamento. É a primeira prática da virtude, direi quase forçada, um mínimo de renúncia às alegrias materiais que nos encaminham à grande renúncia e ao grande superamento do ideal franciscano." - Fragmentos de Pensamento e de Paixão


Conheça a vida e a obra de Pietro Ubaldi

sexta-feira, 3 de abril de 2026

ULTRA – RIVISTA DI STUDI E DI RICERCHE SPIRITUALI - 1928

 

Artigo de Pietro Ubaldi: “TRITTICO”

                                        Março-abril 1928












Conheça a vida e a obra de Pietro Ubaldi

quarta-feira, 18 de março de 2026

OS IDEAIS FRANCISCANOS DIANTE DA PSICOLOGIA MODERNA

 


"O que sentirá o homem comum? O pendor pelas coisas baixas e a ignorância das altas o tornam indiferente diante dos problemas mais substanciais. Eis que aparece o santo e sulca o céu como um meteoro luminoso, deixando atrás de si um rasto de luz. O homem observa indiferentemente e volve a olhar para baixo a fim de acariciar a matéria. O prato que a pastagem oferece é, para a ovelha, todo o universo."

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terça-feira, 10 de março de 2026

OS IDEAIS FRANCISCANOS DIANTE DA PSICOLOGIA MODERNA


 



As virtudes franciscanas são três: pobreza, castidade e obediência. São um trasbordamento de todos os valores humanos; a renúncia completa, que antes de ser redenção e reconstrução do super-homem, é a negação absoluta do homem. 


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quinta-feira, 5 de março de 2026

OS IDEAIS FRANCISCANOS DIANTE DA PSICOLOGIA MODERNA

 



"O Evangelho do Cristo e a vida de São Francisco não são senão o código e a experiência deste superamento biológico da redenção."

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terça-feira, 3 de março de 2026

OS IDEAIS FRANCISCANOS DIANTE DA PSICOLOGIA MODERNA

 



“O santo combate todos os instintos e tudo renega para reafirmar-se no mundo superior. O santo ousa, sozinho, rebelar-se contra as forças tremendas que são as leis da natureza, as leis da animalidade ainda não superadas e vencidas ” - Pietro Ubaldi